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MULHERES ÁRBITRAS

Bruno Gregório, Diogo Miranda e Nicholas Justus

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Crédito: Dorival Zucatto

O futebol é uma representação da vida social no Brasil, uma cultura de multidões. Um esporte onde ao mesmo tempo em que reúne milhões de apaixonados, exclui, quase que por natureza própria, as mulheres. O futebol nunca foi visto como um esporte feminino.  Não são poucas as meninas mulheres que tentam embarcar neste esporte, mas são muitas as que desistem por falta de apoio e infraestrutura. O patrocínio é escasso, assim como o interesse público. Para uma atleta profissional de futebol feminino, não é preciso ganhar um campeonato, para dizer que venceu neste esporte. No país do futebol, o preconceito ainda é o principal adversário para as mulheres. Dessa forma, por que uma mulher se tornaria árbitra?

 A carreira de um árbitro de futebol profissional não é fácil. O trabalho não é registrado tampouco valorizado. A jornada de arbitragem é muito curta: a idade máxima para um juiz de futebol é 45 anos por causa das limitações físicas – em média, árbitros correm 10 km por jogo – e isso se torna um empecilho para que muitos sigam este meio. Arbitrar é uma arte, uma habilidade, um treino incessante de erros e acertos e, também, uma gangorra. Um jogo de futebol é decidido nos detalhes e o árbitro não tem espaço para erro: se errar ele vai ser o culpado pela derrota de determinado time, mas se acertar não terá feito mais do que a obrigação. Por não ser uma profissão de carteira registrada, a maioria dos juízes de futebol precisam de um segundo emprego. É difícil se sustentar apenas com o dinheiro recebido para apitar.

Mas voltemos ao tema principal: mulheres árbitras. A ex-bandeirinha do quadro da Federação Paulista de Futebol, Graziele Crizol conta que o preconceito, hoje, já diminuiu bastante: “ A Ana Paula (ex-bandeirinha) e a Silvia Regina (árbitra central) já quebraram um pouco disso pra gente. Existe, mas é bem mais aceito. Árbitra central sofre mais, quando é bandeira você pode nem aparecer. Tive problema com a imprensa. Após a Ana Paula, disseram que estava ali para sair na playboy. Jornais até fizeram matéria indagando quem seria a próxima”. Graziele afirma que a modernidade dos estádios trouxe mais conforto para as mulheres trabalharem e que os homens as respeitam muito. Aliás, diz que esse é um dos benefícios em ser uma árbitra: “o mito já foi quebrado e todos os homens querem te agradar”.

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Divulgação

Ser paparicada pelos marmanjos em campo não é a única vantagem perante os homens, a ex-bandeirinha fala que a mulher tem mais sensibilidade. Sabemos lidar melhor com os homens e apurar as faltas, somos mais calmas nas decisões. De fato, estudos dizem que a amplitude visual da mulher é maior que a do homem. Uma pesquisa feita por Solange Fecuri e Eliezer Berenstein mostra que a mulher tem uma visão de 180 graus de um cenário, enquanto a do homem é de apenas 30.  Embora os homens levem vantagem fisicamente – vale ressaltar que o teste físico é igual para homens e mulheres. A Fifa ressalta que o jogo é o mesmo, portanto não há diferenciação por causa do sexo. Ambos precisam correr a mesma quantidade – as mulheres conseguem igualar neste aspecto da sensibilidade e da visão privilegiada.

Embora o preconceito tenha diminuído bastante, o maior problema ainda é a falta de oportunidade para árbitras. Existe a demanda, mas as federações não dão a mesma chance para as mulheres. Temos muitas bandeirinhas, mas poucas árbitras centrais. Graziele citou o nome de Regildenia que é uma árbitra com uma excelente capacidade física e ótimo raciocínio, mas que não recebe chances para ser a personagem principal do quinteto de arbitragem (contando os adicionais).

Uma das maiores dificuldades é conciliar a vida profissional com a vida social. A ex-árbitra conta que precisava abdicar de encontros com a família, amigos e até de encontrar um grande amor para se dedicar à arbitragem: “Não sei se vale a pena, me perguntei várias vezes. Hoje não vale, antes valia. É muito desgaste de não estar com as pessoas que você ama. Te exige muito e te dá o retorno muito pequeno. Sou muito a favor da profissionalização do árbitro. Poder largar o emprego e fazer só isso e aí sim podem ser cobrados pela mídia. Mais uma dificuldade: a mulher que pretende ser mãe vai abdicar do seu sonho por causa da arbitragem? Até recuperar  a forma física, um ano ou dois. Muitas tiveram filhos mas não voltaram com o pique todo.  A arbitragem é um pouco ingrata”.

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Crédito: Dorival Zucatto

Embora a profissão seja muito complicada, Graziele acha que com a maior divulgação do futebol feminino e o apelo da mídia cobrando mais mulheres ajudaria bastante a quebrar de vez este preconceito. Ela ainda encoraja meninas a seguirem esta carreira: “você conhece muitas cidade, muitas pessoas legais, o público te dá carinho e você se torna uma pessoa conhecia”.

Ao lado de Ana Paula de Olveira, Graziele é a mais procurada para arbitrar em eventos festivos, mas deixou a arbitragem da Federação para se dedicar a projetos futebolísticos feminino e à sua vida social.  As ex-árbitra é uma das maiores incentivadores e guerreiras na luta pela valorização deste esporte no universo das mulheres. Hoje, faz um belo trabalho nas categorias de base feminina do São Caetano. Ganharam tudo que disputaram no ano passado, mas ainda falta incentivo.

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